sábado, 28 de noviembre de 2009

Crónicas de El Carmel...

Caros amigos,
Para completar a jornada quinzenal Espanhola, depois de Madrid e Buitrago de Lozoya, falo-vos da recente passagem por Barcelona. O principal motivo foi a minha participação na mesa sobre medicina geral e familiar na Europa no congresso da Semfyc, a sociedade espanhola de medicina familiar y comunitária, onde falei sobre o conceito amplo da importância das experiências internacionais durante o internato de medicina geral e familiar. Sobre a apresentação não vou falar mais, pois espero em breve divulgar um texto sobre o mesmo.
Mas fiquei muito contente e deveras surpreendido por terem assistido À minha apresentação gente muito influente, nomeadamente o presidente indigitado da WONCA (organização mundial de médicos de família), o Prof Richard Roberts, dos Estados Unidos, o presidente da associação portuguesa da associação de médicos de clínica geral, Dr João Sequeira Carlos, e alguns quadros importantes da semfyc. O período de discussão foi muito animado, com muita gente a contribuir com perguntas e comentários interessantes.
Uma vez que só cheguei a Barcelona na noite de quinta feira, já sói apanhei a conferência no fim. Tinha ouvido boatos de que este ano a conferência estava mais fraca devido À crise económica, e a verdade é que a área de patrocinadores, nomeadamente indústria farmacêutica estava muito reduzida comparativamente ao ano passado. O meu stand preferido continua , sem dúvida, a ser o da semfyc, onde é possível comprar os famosos livros Espanhóis de Medicina Geral e Familiar,dada a falta de material original Português, e a impossibilidade de os comprar pela internet (pois a página da semfyc apenas permite distribuição dentro de Espanha). Tive pena de não poder ter assistido ao lançamento do manual de sobrevivência do jovem médico de família, na passada quinta-feira, onde sou co-autor de um capítulo sobre medicina geral e familiar na Europa. O livro está com um aspecto delicioso, e fico À espera de conseguir adquirir um exemplar, pois os que havia, para distribuir, esgotaram logo! Os stands das sociedades federadas da semfyc (de cada Comunidade Autónoma) têm também imensas coisas interessantes, e destaco o da Andaluzia, o de Madrid e o da Catalunha, este último com publicações brutais que só não adquiri porque o Catalão ainda constitui uma leitura pesada.
Voltei a encontrar, durante os intervalos para café e de almoço, velhos amigos, colegas, bem como gente conhecida, e sem dúvida que os ares de Espanha são sempre inspiradores para quem em Portugal se dedica aos cuidados de saúde primários. Há sempre coisas novas a acontecer, e muitos projectos inovadores em incubação.
Da parte da tarde, assisti parcialmente a uma sessão sobre gestão em cuidados de saúde primários, cujo ponto alto foi sem dúvida a presença do Dr Luís Pisco, figura máxima dos cuidados de saúde primários Portugueses, e que apresentou todo o projecto de reforma tintim por tintim dos cuidados de saúde primários em Portugal, e que gerou muito interesse por parte dos colegas Espanhóis. O Dr Pisco chegou a referir, para grande sururu na sala, que alguns médicos de família em Portugal, graças à reforma e à implementação das unidades de saúde familiares, podiam chegar a ganhar quase tanto como alguns médicos de família Britânicos, que chegam a auferir 150 000 a 200 000 euros por ano, mas confesso que fiquei um pouco céptico relativamente a isso.
Contudo, e como fiquei alojado em casa de uma amiga e colega Espanhola, aproveitei hoje para visitar o centro de saúde El Carmel, localizado num bairro de classe média-baixa na parte norte da cidade Norte de Barcelona. El Carmel bem podia ser o centro de saúde geminado de Rio de Mouro, à semelhança do conceito das cidades geminadas. Tem uma comunidade de um estrato sócio-económico parecido e uma população mista de imigrantes da Andalucia e Extremadura (tal como em Rio de Mouro temos imigrantes das zonas tradicionalmente mais rurais e pobres de Portugal), que se instalaram naquela zona sobretudo na década de 50-60 do século XX, bem como imigrantes de todo o mundo, nas décadas mais recentes. Só esta manhã tive oportunidade de ver doentes do Perú, Colômbia, Honduras e Marrocos, uma vez que a minha colega estava escalada para as urgências no centro de saúde das 9h-17h.
Para além da minha colega, estava mais outra médica escalada, que sugeriu que eu a acompanhasse num domicilio no bairro. Em muito boa hora o fez, pois fomos visitar um doente de 92 anos que tinha acabado de receber um telefonema do conhecido hospital Vall d’Hebron (o hospital de referência do centro de saúde), a informá-lo que a sua esposa acabara de falecer (já estava internada há vários dias). O casal era originário de Granada, e conheciam-se há 80 anos, ou seja, desde os seus 12-13 anos. O doente estava lavado em lágrimas, e a médica esteve todo o tempo com as suas mãos agarradas às dele e prestando-lhe todo o apoio emocional necessário naquele momento. Uma autêntica consulta sagrada, que culminou com o reajustamento das doses de benzodiazepinas e certificar-se que a cuidadora Sul-Americana tinha entendido tudo.
A mesma médica acabou por ter outro domicílio mais tarde, a um jovem de 30 anos, consumidor de álcool e cocaína, que referia estar-se a sentir muito “nervoso”, e que pedia um atestado médico. Fiquei mais tarde a perceber que o doente tinha hoje à tarde uma reunião marcada com um agente judicial, mas que estava a tentar arranjar uma forma de conseguir não comparecer. A médica acabou por não lhe passar o atestado, mas disse que ele ia ao Hospital Vall d’Hebron, onde ia acabar provavelmente por passar o dia, e assim “safar-se” à reunião.
A topografia do Bairro faz lembrar as colinas de Lisboa, mas com declives ainda mais acentuados. Barcelona tem também as suas colinas , muito maiores que as de Lisboa, e as dificuldades de mobilidade dentro do bairro precipitadas pela geografia, a que se adiciona a elevada percentagem de doentes idosos, faz com que os domicílios tenham efectivamente uma importância muito grande. Achei piada que a junta de freguesia tenha criado uma série de escadas rolantes nas zonas do bairro com mais declive, de modo a melhorar a mobilidade nas pessoas mais idosas, ao lado das escadarias normais.
Reparei que os doentes Catalães são muito diferente dos doentes oriundos das outras regiões Espanholas. Têm uma fisionomia mais “Norte-Europeia”, com olhos e cabelo mais claro, e um carácter mais frio e reservado, o que torna a relação médico-doente mais distante, até porque se interpõe a questão linguística. Mesmo depois da minha colega ter começado a falar em Castelhano, a doente continuava a falar em Catalão. A meio da consulta a doente lá cedeu para o Castelhano, mas isto é prova de como o idioma pode alterar completamente a dinâmica da consulta.
Hoje essencialmente viram-se doente s pediátricos, uma vez que neste centro de saúde, as crianças são vistas por pediatras de cuidados de saúde primários, mas que não trabalham ao fim de semana. Fiquei impressionado com o grau de competência técnico científica e de relação médico doente conseguido pela minha colega. Faz o exame objectivo de uma forma muito metódica (do mais metódico que tenho visto fazer), e até os cálculos das doses pediátricas dos medicamentos já fazia de cabeça em poucos segundos. Termina o internato em Junho de 2010, mas está claramente muito bem preparada para ser médica de familia, e auguro-lhe um futuro brilhante pela frente.
Mas em resumo, o Centro de Saúde El Carmel é um bom contraste à experiência rural na semana passada em Madrid. A prática da minha colega aproxima-se mais da minha em Rio de Mouro. De qualquer forma, acho que em Espanha estão um pouco melhor que em Portugal.
Escrevo esta mensagem a bordo do vôo da TAP Portugal que me leva de volta a casa. O comandandante acaba de avisar que estamos a ir muito mais devagar que o habitual devido a ventos muito fortes, o que vai aumentar o tempo de viagem um bocado. Quando a receberem, espero já estar a jantar tranquilamente e a recordar uma estadia memorável numa cidade que enche o olho. Madrid é um gigante cosmopolita com uma escala global que esmaga. Barcelona lembra-me Lisboa, mais despretensiosa, mais pequena (tem uma dimensão semelhante a Lisboa), mas irresistível, com o mar a piscar-nos o olho.

saludinhos,
Tiago

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