Olá a todos,
o dia de hoje com Juan foi parecido com o de ontem. Consulta de manhã
e aulas na Escuela Nacional de Sanidad durante a tarde.
Hoje fomos para Canencia de la Sierra, outra aldeia da Sierra Norte,
com cerca de 700 habitantes, população esta que triplica durante o
verão. Mais uma vez encontrei-me com o Juan no edifício-sede, em
Buitrago, onde o Juan esteve 15 minutos a tratar de burocracias e a
falar com alguns colegas. O centro de saúde por dentro é parecido com
um centro Português, com a sala de espera no centro e os gabinetes à
volta, mas tem diferenças importantes, como sala de reanimação com
desfibrilhador manual e material para partos, e sala de análises, onde
os doentes vão recolher sangue.
Bem, nunca na minha vida vi alguém que visse 50 doentes numa manhã
(09h-14h15), mas foi o balanço do dia de hoje.
Desde logo saliento dois aspectos: a baixa taxa de pedidos de exames e
referenciações e a alta capacidade resolutiva que passou por 5
pequenas cirurgias só hoje de manhã, incluindo lesões complicadas no
pavilhão auricular e no dorso. Eu brinquei com o Juan dizendo que se
fossem todos como ele, os dermatologistas não tinham trabalho!
Tal como em Portugal, os doentes gostam de pedir "rotinas" e exames,
ao que o Juan invariavelmente diz alguma coisa dos estilo:
"Analítica para que? No sirve para nada! No hay necesidad! Yo
personalmente hace 10 años que no hago análises, No hace falta!".
Aos inúmeros pedidos de opinião sobre vacinar ou não vacinar contra a
gripe A, ele diz: "yo creo que no vale la pena, pero hace lo que
quieres!" Hoje um pedido da vacina do VPH levou um "no tiene
fundamento científico! Si quieres, va a mi página www.equipocesca.org
y le lo que hay publicado!" .
Ele gosta muito de fazer Educacion para la salud (escreve nas notas
EPS) quando calha, por exemplo, hoje um doente idoso que veio por um
traumatismo da mão, ele aproveitou para fazer EPS sobre fracturas do
cólo do fémur. Muitos dos doentes dele comem mal. e ele em vez de
aceder ao pedido de análises, nega as mesmas, e diz "vida sana, no
comer barbaridades". Eu perguntei-lhe porque é que não pediu uma PTGO
por um doente que trazia uma glicémia de 115, e ele disse: "no tiene
fundamento científico!".
Os doentes estão muito tristes com a reforma antecipada do Juan. Ele
vai-se reformar com 61 anos (faz anos para a semana), no final de
Dezembro. Dizem "Don Juan, por
favor no se vaya!!", e ele quase que começa a chorar quando ouve isto,
vai-lhe custar imenso a mudança de vida...
Ele hoje disse-me para eu ir observar os olhos de um doente que tinha
feito cirurgia às cataratas na semana anterior, mas tive-lhe que dizer
que não sabia utilizar o oftalmoscópio, porque nunca aprendi, e porque
os médicos de família não usam oftalmoscópios em Portugal. Uma lacuna
formativa que há que corrigir...
Outra coisa interessante, praticamente não usam varfarina aqui em
Espanha, só o acenocoumarol (Sintrom), mas ainda não percebi porquê.
Ele tem bastantes doentes imigrantes. Há uma presença muito
significativa de doentes Búlgaros, Argentinos, Marroquinos. Ontem, uma
doente Búlgara estava casada com um Colombiano! Os doentes tratam o
Juan por "tu" e vice-versa, o que aqui é comum, nada do estilo "Sr
Doutor" de Portugal, embora os idosos usem mais o Don Juan!
Só vi o Juan fazer uma única referenciação, uma doente com uma verruga
muito profunda do pé que ele tentou extirpar, mas recidivou, e que ele
mandou ao dermatologista, mas que este devolveu dizendo que era para a
cirurgia! Então a doente voltou hoje e pediu a referenciação para a
cirurgia!
Assim que saímos da consulta, fomos fazer um domicílio a casa de um
doente que tinha acabado de regressar do hospital, onde lhe colocaram
uma prótese do joelho. O penso operatório tava limpo, sem sinais
inflamatórios, e o Juan acabou apenas por fazer EPS e dar conselhos
aos familiares sobre como fazer os pensos. Apesar do Juan dizer que a
Sierra Norte é a zona mais pobre da Comunidad de Madrid (região
autónoma de Madrid), acho que em geral, as casas estão muito bem
cuidadas, super bem tratadas, e o nível de pobreza será inferior ao de
Portugal.
Em seguida, fomos novamente para Madrid e às 15h55 estávamos à porta
da sala de aula, e o Juan teve que
"expulsar" o prof anterior para começar a aula a horas. O prof
anterior era nem mais nem menos Juan Ramon Repullo, uma figura de proa
na área da investigação de serviços de saude em Espanha, e muito
cotado a nível Europeu.
A aula de hoje acabou por ser mais estruturada que a de ontem, pois
creio que os alunos, de acordo com o Juan, "já estavam domados".
A aula começou com um teste. Em 5 minutos, tínhamos que nos recordar
da aula anterior e responder numa folha de papel:
1. quais são os recursos sanitários?
2. Quem é Jim Wright?
3. Que é proteccion de la salud?
4. Quais são os fins dos sistemas de saúde, de acordo com o relatório Hastings?
Depois, para ilustrar como as nossas interpretações da realidade
variam consoante o nosso país, pediu a cada um para demonstrar como é
que os cães ladram no seu país. Mas de facto foi impressionante, o
colega de Espanha "ladrava" de uma forma completamente diferente da do
colega do Mali!
Falando de Amartya Sen, a saúde em Kerala, Índia, o teólogo Leonardo
Boff, Ivan Illich,citando inúmeros autores espanhóis consagrados como
Salvador Peiró, Andreu Segura, levou-nos através de uma viagem ao
mundo dos serviços de saúde. Falou dos serviços de saúde, dos recursos
sanitários, da organização dos serviços de saúde e concentrou-se na
parte da profissão médica, e falou dos sistemas de pagamento e
incentivos dos médicos, e não poupou críticas aos países com sistemas
de pagamento por salário (Portugal, Espanha, Grécia, Finlandia, Suécia
e Islândia), em contraste com os sistemas de pagamento por capitação
ou por acto.
Fartou-se também de falar na prevenção quaternária e nas diferenças
entre os cuidados primários e os cuidados especializados, a nível da
continuidade, longitudinalidade, filtro, ligação com a comunidade,
dados moles, dados duros, gestão da incerteza, etc... até fiquei a
saber que o sistema de saúde de cuidados primários para os veteranos
da guerra dos Estados Unidos é o melhor do país, apesar de ser o único
de entre os outros sistemas, da Medicare, Medicaid, em que os médicos
são assalariados e não pagos por acto.
8 em ponto, tipo Cinderela, aula acaba, e Juan arranca a toda a velocidade para
Buitrago. Em meia hora estamos de volta.
Hoje encerro a loja cedo, pois amanhã o Juan vai estar Às 7h à porta
do hotel para irmos para Madrid, onde ele vai falar no debate sobre
problemas éticos da gripe A na Ordem dos Médicos. Vão estar presentes
gente importante da comunidade médica Espanhola, como Juan Ramon
Laporte, catedrático de farmacologia e director do boletim GROC, e
Andreu Segura, presidente da Associação Espanhola de Saúde Pública e Administração de
Saúde (SESPAS), e a abertura caberá a Juan Sendin, presidente da Ordem dos
Médicos de Espanha, e como Juan diz, "médico de pueblo". Sim, os
Espanhóis têm À frente da Ordem dos Médicos um médico de família!
saludos,
Tiago
lunes, 23 de noviembre de 2009
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2 comentarios:
Parabens Tiago!
E muito fixe leer saudeeoutrascoisasdecomer em portuges, e mais se escreve um gajo como tu!!
abraço
Lamentável ouvir um professor dizer que os alunos estão domados...normalmente, em uma pós-graduação, espera-se uma troca de conhecimentos e não uma domésticação de cavalos. Espero que vc não absorva tudo o que ouve e vê.
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