Recentemente, foi-me pedido que escrevesse um artigo para o jornal do meu centro de saúde. Decidi escrever sobre os médicos internos e sobre a especialidade de Medicina Geral e Familiar. O que acontece é que muitas vezes os médicos internos são confundidos com "alunos", com "estagiários" ou ainda com "médicos substitutos". É preciso clarificar as coisas. Por outro lado, os utentes não têm noção que o seu médico de família é também um especialista, à semelhança de um cardiologista ou de um cirurgião. Mas a marca "Medicina Geral e Familiar", apesar de estar a "vender" cada vez mais, ainda é fraca. Poucos são aqueles que sabem que os médicos de família são afinal de contas especialistas em Medicina Geral e Familiar.
Quem são os “doutores novinhos” do centro de saúde?
Se é utente da Unidade, é muito provável que já tenha sido atendido por um médico bastante mais novo que o seu médico de família. Ao início, se calhar estranhou, pois viu o seu médico de familia a fazer consulta no gabinete ao lado, e terá possivelmente ficado a pensar porque é que teria que ser atendido por outro médico, ainda por cima com um ar jovem e “inexperiente”, quando o seu médico nem sequer estava ausente nesse dia.
Em primeiro lugar, não fique aborrecido com o seu médico. Não é que ele não o/a queira atender. O que se passa é que o seu médico de família, para além de ter a cargo todos os utentes da sua lista, poderá também ter também a responsabilidade adicional de formar futuros médicos de família.
Os médicos mais “novos” com que provavelmente já contactou são chamados “médicos internos”. São “médicos” porque já concluíram a licenciatura em Medicina (agora denominado Mestrado Integrado em Medicina devido à reforma recente do Ensino Superior na Europa), e “internos”, porque se encontram a realizar o chamado “internato médico”. E o que é o internato médico? O internato médico é o período de formação pós graduada dos médicos que conduz à obtenção do grau de especialista. Por outras palavras, é a fase em que o médico está a “tirar a especialidade”, e isso aplica-se tanto no âmbito da medicina hospitalar como dos cuidados de saúde primários.
“Médico Interno” é o equivalente da expressão Norte-Americana “resident”, que decerto já terá ouvido nas conhecidas séries de televisão como o “Serviço de Urgência”, “Dr House” ou “Anatomia de Grey”.
Sim, o seu médico de família também é um “especialista”, à semelhança de um médico cardiologista, de um cirurgião ou de um ginecologista-obstetra. A nossa especialidade chama-se Medicina Geral e Familiar ou “MGF”, pelo que quando terminarem este período de formação, estes “médicos mais novos” serão especialistas em Medicina Geral e Familiar ou simplesmente “médicos de família”, tal como o seu próprio médico.
Muita gente não tem noção que o seu médico de família é também um “especialista”, e isso em parte tem a ver com o facto de ser uma especialidade jovem, que existe há menos de 30 anos, tendo sido criada no início dos anos 80 do século passado. Trata-se de uma especialidade cada vez mais popular a nível dos estudantes de medicina e dos jovens médicos, e está a atravessar uma fase de enorme desenvolvimento organizacional, técnico e científico.
O internato médico de Medicina Geral e Familiar dura actualmente quatro anos, e durante este período os médicos internos têm que realizar uma série de estágios no centro de saúde e a nível hospitalar, para além de serem sujeitos a exames anuais onde são avaliados a nível de conhecimentos e desempenho prático.
Neste momento existem sete médicos internos a realizar o seu internato na Unidade de Saúde Familiar AlphaMouro (Dr António Santos, Dra Cláudia Ho, Dra Filipa Fareleira, Dra Filipa Nóbrega, Dr Marcos Cabral, Dra Jerusa Oliveira, Dr Tiago Villanueva) bem como quatro orientadores de internato de Medicina Geral e Familiar. Isto é, dos dez médicos da Unidade, quatro são responsáveis pela formação de novos especialistas em Medicina Geral e Familiar, nomeadamente a Dra Délia Pacheco, a Dra Maria José Verdasca, o Dr José Carlos Patrício e a Dra Zélia Vaz.
Mas agora deve estar a pensar que se os médicos de Medicina Geral e Familiar são especialistas, são especialistas em quê? É verdade que o seu médico de família pode não saber tanto como um cardiologista sabe de cardiologia, como um cirurgião sabe de cirurgia, e por aí fora. Mas nenhum outro especialista sabe tanto acerca de si como doente, como cidadão, como profissional, como esposo, como pai, como filho, etc. Apenas o seu médico detém este conhecimento “global” de si enquanto pessoa, e daí que os médicos de Medicina Geral e Familiar são especialistas em pessoas, sendo o seu médico de família especialista em “si”. Isto faz com que sejam capazes de resolver praticamente cerca de 90% dos seus problemas de saúde, tendo apenas necessidade de referenciar para os colegas hospitalares aquelas situações que já saem fora do seu âmbito de conhecimentos e competências.
Da próxima vez que for a uma consulta com o seu médico de família, não fique aborrecido se o seu médico de família lhe pedir para ser atendido por um médico interno. Ao aceder a ser atendido por um médico interno, está a contribuir para a nossa formação, ao permitir que ganhemos experiência, e sempre sob a supervisão do seu médico de família.
sábado, 12 de diciembre de 2009
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1 comentarios:
por que é que os estudantes de medicina deixam esta especialidade para as ultimas vagas? há diferenças no salario? nao percebo...
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