Durante uma semana, tive o privilégio de acompanhar o Dr Juan Gérvas na sua consulta e nas suas actividades académicas. O Dr Juan Gérvas é uma das estrelas da Medicina Geral e Familiar Espanhola, e é conhecido em todo o mundo. É das pessoas que no mundo mais publica a nível dos cuidados de saúde primários. Basta irem ao Pubmed e escreverem "Gérvas, J".
Este estágio foi aprovado oficialmente pela minha direcção de internato, devido ao elevado prestígio do médico Espanhol, e teve lugar na Sierra Norte de Madrid, nomeadamente nos concelhos de Buitrago de Lozoya, Canencia de la Sierra, El Cuadrón y Garganta de los Montes.
Aqui fica o relato do primeiro dia:
Olá a todos,
no rescaldo deste primeiro dia desta semana-maratona com o Dr Juan
Gérvas, por onde começar?
Bem, acordei por volta das 7h20, e quando desci, cerca das 8h03, já
tinha o pequeno-almoço na mesa. Este hotel, tal como praticamente todó
o comércio desta aldeia, é um negócio familiar, e foi o próprio dono
do hotel a preparar e a servir-me o pequeno almoço: sumo de laranja,
torrada, bolo e café com leite.
Pelas 08h15, já estava na rua, e não me recordo da última vez em que
saí à rua e praticamente só se ouviam os passarinhos.
As pessoas aqui em geral ou são muito curiosas ou muito desconfiadas,
e antes de chegar ao centro de saúde, decidi entrar numa padaria que
estava a servir pão quente, e o dono vira-se logo para mim e pergunta,
antes sequer de eu entrar dentro da loja, "que quieres?" , ao que eu
respondo, "só quero ver!", mas acabo por comprar um croissant
acabadinho de sair do forno.
Às 08h22, encontro Juan Gérvas à porta da entrada das urgências do
centro de saúde, e entramos. Conheço de imediato a médica que esteve
de "guardia" durante a noite (de banco, sim porque o centro de saúde
está aberto 24 horas), e que me oferece café. Antes de seguirmos para
Garganta de los Montes (uma das 3 aldeias em que Juan Gérvas
trabalha), Juan recebe o testemunho dum colega Cubano que esteve a
substituí-lo na consulta enquanto ele esteve no Brasil, e lhe resume
os acontecimentos mais relevantes da semana e lhe devolve as chaves. O
colega Cubano tirou a especialidade de neurofisiologia em Cuba, e
agora está a estudar para realizar o MIR (o exame de entrada na
especialidade) e entrar na mesma especialidade em Espanha (creio que
em Portugal não existe esta especialidade). Pelo que o Juan me disse,
quando ele ou outro médico se ausenta (a Comunidade de Madrid
divide-se em várias áreas de saúde, a sua é a 5), é emitido logo um
anúncio através da gerência da área de saúde, e são médicos como o
colega Cubano, que precisam destes trabalhos temporários para
sobreviver, que respondem aos anúncios.
Passados 15 minutos de carro, percorrendo uma paisagem de sonho,
chegamos a Garganta de los Montes, uma aldeia com 500 habitantes. O
centro de saúde é todo feito em vidro, com muita iluminação e pintado
de laranja, com uma arquitectura arrojada, mas bastante bem integrada
dentro da aldeia.
Durante a manhã, desde as 9 em ponto até às 13h30, atendeu 42 doentes,
contando com os contactos indirectos (consulta para familiares que não
estão presentes), que é uma média impresionante. Juan não tem
consultas marcadas (os doentes vão entrando de uma forma organizada de
acordo com a ordem de chegada - não parece haver pegas sobre quem
chegou primeiro!), não usa o computador apesar de tê-lo, não tem
administrativos nem enfermeiros. Tem os processos todos em papel, e
assim que entra um doente pergunta o número do processo e vai
buscá-lo a uma gaveta mesmo ao lado da secretária sem ter sequer que
se levantar. Os processos, para além da primeira página que é a lista
de problemas, consistem em folhas de papel em branco, em que ele vai
escrevinhando os seus gatafunhos, muito sucintos e telegráficos, mas
extremamente "to the point". Ele inclusive faz desenhos nos processos,
quando tem lesões na pele, para monitorizar a sua evolução, e salienta
a vantagem de usar o papel, pois uma das desvantagens é não se poder
fazer desenhos.
Durante as consultas vão surgindo temas de discussão académica, que
ele me vai pedindo para ir anotando, para mais tarde comentar: "aponta
aí, apoio ao cuidador", ou "escreve, importância dos desenhos na
consulta", "anota, consulta sagrada", "não te esqueças, acredita
quando um doente te diz que tem dor, mesmo que não encontres causa
aparente", "aponta, relações entre médicos e entre cuidados primários
e secundários".
Vai comentando todos os casos comigo, até para eu perceber o contexto
pessoal e familiar e perceber o motivo de consulta. O que logo se
torna aparente é a enorme capacidade resolutiva dele. Durante a manhã,
tratou uma queratose actínica com crioterapia (tem na consulta) e
extirpou dois nevus de uma senhora a quem tinha tirado uma verruga com
5 cm de diâmetro na face, que nem o dermatologista queria tirar! Para
anestesia usou creme EMLA, cobriu com gaze e mandou a doente 1 hora
para a sala de espera, e foi chamando outros doentes.
Juan não parou, era um doente a seguir a outro, umas consultas mais
simples que outras, e uma consulta que ele denominou "sagrada", um
indivíduo com um historial de toxicodependência pesado e antecedentes
de tentativas de suicídio, e que se mudou de outra cidade Espanhola
para mudar de vida. Foi impressionante, perguntou por tudo, se tinha
vida social, se comia adequadamente, se tinha vida sexual...
A reter, durante a manhã inteira, não pediu um único exame
complementar de diagnóstico! Propositadamente não tem telefone na
sala, mas na sala ao lado, onde toca de uma forma discreta, e ele se
levanta serenamente para atender. Ligaram durante a manhã a assistente
social e uma interna que quer passar uma semana na sua consulta.
Antes de irmos embora, tirou todo o material da sua mala de domicílios
e colocou em cima da marquesa para que eu fotografasse. Eu nem queria
acreditar, ele tem de tudo: desde morfina para doentes terminais (e
traz também receitas para estupefacientes), espelho para
laringoscopias, espelho duplo para visualizar úlceras de pressão em
doentes acamados, material de sutura e de pequena cirurgia,
adrenalina, isqueiro para queimar clips para drenar hematomas
subungueais, enfim ele tem literalmente tudo e mais alguma coisa.
Antes de voltarmos, fomos fazer um domicílio em casa de um doente que
tinha vindo à consulta durante a manhã, e que está a tomar conta da
mulher acamada, e que se estava a queixar do ombro.Antes de sair,
comenta uma outra foto que está na sala, e diz à doente que tem muita
sorte em ter um marido tão preocupado (são um casal de idosos).
De volta a Buitrago, separamo-nos por 30 minutos, de modo a eu ir
comer qualquer coisa. Entro num café e peço um hamburger e
salada, que era o mais rápido que me arranjavam. A dona do café é
Colombiana, o empregado é Vietnamita, e o outro cliente presente é da
Venezuela! Ao que parece, 20% da população de Buitrago é imigrante.
Depois, lembro-me que seria boa ideia levar algo para comer durante a
tarde, e entro noutro café para levar um bocadillo de tortilla. A dona
é Portuguesa, de Bragança, em Espanha há mais de 20 anos "por coisas
da vida"!
Às 14h58 (tínhamos combinado às 15h) Juan já estava à minha espera
quando chego ao nosso meeting point. Seguimos em grande velocidade
pela autoestrada A1 até Madrid, até ao instituto Carlos III, onde
estão vários institutos de investigação, bem como a Escuela Nacional
de Sanidad, onde Juan vai leccionar durante as próximas 4 horas aos
alunos do mestrado de saúde internacional. A audiência provém de
vários países, Panamá, Argentina, Brasil, Perú, Honduras, Áustria,
Guiné Equatorial, etc...
O estilo de leccionar do Juan é algo que desafia todos os paradigmas.
Ao entrar na sala, diz assim: "cuantos tienen cistitis por exceso de
actividad sexual durante el fin de semana?" É a risota geral.
Não usa powerpoint. No meio de divagações filosóficas, piadas mais ou
menos picantes, respostas a perguntas dos alunos, lá vai mandando as
suas pinceladas e tiradas certeiras sobre os temas da aula, que tinha
sobretudo que ver com a (não)importância da prevenção e lei dos
cuidados inversos. Fala de autores, livros, artigos e organizações
que sugere que os alunos investiguem e tomem conhecimento e vai
falando um pouco de si, e clarificando que está ali para contagiar os
alunos com uma doença chamada "cepticémia", e transmitir inquietudes.
Quer que os alunos tomem contacto com ideias novas que desafiem tudo
aquilo que aprenderam e que tomam por certo, mas que acima de tudo
sejam críticos e formem a sua própria opinião baseando-se no melhor
fundamento científico. Critica duramente os programas de rastreio de
cancro da mama e colo do útero, vacinação contra o VPH e gripe A. no
meio de uma audiência meio desconfiada. Em resumo, "quiero que mis
clases sean memorables, y que nunca se repitán, nunca sean iguales".
Ao descobrir que havia um casal de médicos do Chile na audiência,
despede-se dizendo: "eso es la ventaja de ser casado, no hay que
perder tiempo con la búsqueda, se tiene en casa!".
Decerto que ele não deixa ninguém indiferente, ame-se ou odeie-se.
Às 20h em ponto, seguimos novamente em alta velocidade para Buitrago,
e confessa-se exausto, pois o seu estilo de dar aulas sai-lhe do pêlo.
Amanhã haverão mais aulas...
Boa noite!
Tiago